CHUMBADINHA

Com os velhos é que se aprende a ver o mar, marisqueiros profissionais da apanha dos percebes de Verão, e da pesca à cana no Inverno, calejados e experientes habituados a ver as mudanças do mar e das areias; é com eles que dá gosto falar do mar, do tempo e das épocas de pesca, pois na sua geração não havia satélites nem a tecnologia que existe hoje, para prever o estado do tempo.

É importante para o pescador ter conhecimentos sobre o estado do tempo e do mar para poder sobressair e evoluir; mesmo assim nunca se chega a saber tudo, pois estamos sempre a aprender, com a experiência e com os mais conhecedores. Alguns aprendem mais rapidamente por gosto e por persistência, ou por terem mais disponibilidade de tempo para experimentarem as técnicas, outros não aprendem pura e simplesmente por não terem companheiro com capacidade para os ensinarem, ou não se querem cansar e pescam perto do carro, não procuram o peixe onde ele está com mais abundância, geralmente em pesqueiros de difícil acesso.

O pescador deve ser persistente a entender a natureza, o mar e o tempo. Procurar o peixe, conhecer a costa a andar pelas pedras e não ficar limitado a meia dúzia de pesqueiros. A pesca também tem obviamente o factor sorte, mas ter conhecimentos e experiência é importante para se ser bem sucedido.

Na altura do Equinócio do Outono ocorrem as marés vivas do final de Setembro, por vezes com mar agitado, que assinalam a transição do Verão para o Inverno.

No nossa costa os ventos são de predominante Norte, que quando fortes embravecem o mar, "esbarrentam" e arrefecem as águas, o que não é do agrado nem do peixe nem do pescador de cana.

Montagem com chumbadinha directa para fundo muito rochoso, com muito conchilho

O inverso acontece com tempo de sueste, tempo seco, bom para pescar mas por vezes trás vento, do quadrante sul também vindo de África, no Inverno este quase sempre trás chuva mas também deixa as águas azuis e é o que mais as aquece, o que, como é óbvio, do agrado do peixe, fazendo com que nesta época se aproxime mais da costa, tornando-o mais activo na procura de comida; o peixe está geralmente gordo e aparecem exemplares de maior dimensão. As douradas e os sargos alimentam-se nesta época principalmente de marisco (mexilhão, percebes,...), os robalos grandes começam a aparecer, as bailas procuram comida nas areias.

De Setembro até Fevereiro são os melhores meses para a pesca, o peixe prepara-se para o acasalamento para depois desovar em meados de Fevereiro.

Devemos estar com atenção ao tempo e ao mar para pescar pela certa e com sucesso.

É na maré vazia que melhor se vêm os fundões, as areias e as pedras marisqueiras, onde o peixe se alimenta. na maré cheia conseguem ver-se os fundões, com mar bravo observando a água azul no meio da rebentação/"rebojo".

O peixe sabe bem quando o mar vai embravecer, sente-o a começar a remexer pelo fundo e procura mais a comida para depois se abrigar nos fundões do mar bravo e da corrente e não ter fome nos dias seguintes. Quando o mar amansa também é propício ir á pesca, pois o peixe tem fome e procura novamente comida.

Um dos factores que mais faz embravecer o mar é o vento.

Os sinais do mar a embravecer são as vagas a formarem-se cada vez mais longe da costa, mais sucessivamente com enchidos; uma vaga apanhar a outra e a espuma que por vezes desenha na água os contornos da costa a afastar-se para o largo chamando-se assim em calão de pescador - o mar a ganhar "fóla".

O tempo que mais faz amansar o mar é o tempo de terra ou seja vento de Leste e nordeste que também, por sua vez muitos dias seguidos deixa as águas lusas e vidradas, o mar é chão o que não presta, por não fazer feição; o tempo de calmaria, incerto ou de trovoada também amansa o mar. Os meses de mares mansos no Verão, Julho, Agosto e Setembro são os meses em que as areias são empurradas para a costa; para quem não saiba asa areias deslocam-se quase sempre contra o vento, isto é com mares mansos com tempo de leste e nordeste a costa assoreia.

Pelo contrário com mares bravos e tempo de Oeste e sudoeste as areias são retiradas dos pesqueiros.

O segredo está, quando o tempo estiver de terra, em saber ver onde o mar pôs areias novas nas pedras marisqueiras, pois o peixe aparece aí nessas malhadas porque as areias deslocam a comedia.

As areias novas são finas e por vezes mesmo com mares mansos deslocam-se e vêem-se em suspensão.

No Inverno há óptimos dias para fazer pesca de fundo ligeira - chumbadinha.

O anzol nº 3, 515 de patilha comprida da Mustad é o aconselhado para esta montagem

O que eu faço em primeiro lugar na véspera de ir à pesca é consultar o tempo, informando-me da cor da água, evitando águas muito barrentas. Se for em marés de Lua, escolho pesqueiros recuados para fazer a enchente. Em marés grandes principalmente a de Lua Nova e também a de Lua Cheia o peixe está mais activo, podendo acompanhar a maré e ir comer onde não pode em marés de quarto; vejo a hora da maré pois como já disse, prefiro fazer as enchentes para pescar sargos e douradas, pelo contrário prefiro a vazante para os robalos, geralmente em fundos de areia. Só depois de ver o mar é que aposto no pesqueiro, se for a vazar escolho uma pedra de ponta se estiver a encher pesco mais por terra, dependendo do estado do mar e se o pesqueiro dá para acompanhar a maré. O pesqueiro tem que fazer feição - rabujada, os sargos, douradas e robalos gostam do mar mexido.

Quando o mar é mais bravo vou pescar para as falésias, vejo onde o mar faz agueiro, pois é o sitio mais fundo por onde as ondas recuam. Aos sargos e douradas gosto de lançar a chumbadinha junto ás marisqueiras, é nelas que o peixe come; experimento também nos buracos das pedras, grutas e fendas quando o mar deixa. Se o mar é bravo o pesqueiro tem de ter boa altura de água. Tento pescar em frente e utilizar linha fina no carreto para a ondulação não pegar tanto na linha, as espessuras que utilizo é o 0,30mm ou 0,35mm.

Iscada de sardinha para os robalos:isca-se com pele para ajudar a segurar e convém atar a iscada

As chumbadinhas são todas furadas e o seu peso é condicionado pelo estado do mar, tentando pescar o mais ligeiro possível. A chumbadinha deve trabalhar de forma a correr com o mar, para procurar os buracos, as marisqueiras, os agueiros, locais onde o peixe se encontra. Utilizo chumbadinhas entre as 30 g a 150 g de acordo com a ondulação e lançamento que precisar fazer. Para lançar mais longe utilizo chumbadinhas mais pesadas. Porque razão se utiliza a chumbadinha furada? Para quando o peixe come não sentir a prisão desta, bem como o estralho poder estar liberto, comportando-se a isca como se estivesse solta. Utilizo linha de cor verde Biomaster da Shimano no carreto 0,30 ou 0,35, dependendo da altura do pesqueiro e do peso do peixe, embora se ste for muito grande utilize o cesto. Quando utilizo  estralho, faço a ligação deste  à linha do carreto por intermédio de um destorcedor.

Convém atar a iscada de mexilhão

Nos pesqueiros com fundo de areia quando o mar é bravo e há corrente aconselho uma chumbada normal de bico, pois segura-se melhor. A pescar aos robalos principalmente nos meses de desova, Janeiro e Fevereiro, engodo muito com sardinha misturada com areia seca e mal pisada. Os robalos grandes gostam de engodo grosso, pesco com um estralho de espessura igual à linha mestra com o comprimento de 1,20 metros, um anzol 3/0 ref.39853N da Mustad, pois é resistente, aberto e com boa ferragem. Este comprimento do estralho nas areias a pescar com ondulação aumenta a eficácia, capturando mais peixe por não despertar desconfiança.

Nos fundos de pedra para ter menos tendência a enrochar pesco com estralhos curtos. Por vezes quanto mais curto melhor, como é o caso de fundos muito rochosos cobertos de concilho. Se estiver em pesqueiro alto com 10 ou 20 m de altura e verificar que está a enrochar muito, passo a pescar directo, isto é, empato o anzol directo. Se não precisar de lançar muito longe, utilizo um anzol de patilha comprida 515 da Mustad nº3. Esta montagem faz confusão a muita gente, porque a chumbadinha bate no anzol iscado. Como não é preciso lançar longe e estamos a pescar à beira da falésia, é só deixar cair a chumbadinha, não estragando a iscada. No fundo a iscada, com a corrente e o remexer do mar distancia-se da chumbadinha, o peixe vai lá na mesma e a tendência a enrochar é menor, soltando-se muito melhor das pedras. Esta técnica é mais utilizada para pescar sargos.

 Pesca-se com a cana sempre na mão para sentir o mar o fundo e o peixe. Acompanha-se o mar e a ondulação dando linha e recuperando-a, mas também não muito esticada. A linha Biomaster da Shimano não se enrola muito e dá-me confiança quando aperto com o peixe, pois eu sei que se demoro muito tempo a tirá-lo o estrebuchar deste assusta os outros o que não convém. As canas que eu e alguns dos meus colegas de Colares, Mucifal e Almoçageme usamos para pescar nas falésias e em mar aberto é a Hiro SSP 400 MK2, e o carreto Symetric 5000 FG da Shimano. Para uma pesca mais pesada, aconselho uma cana Hiro telescópica Ref. CTS MK4, de 450 cm, com um carreto Daiwa da série Emblem Z. As minhas iscas preferidas são tiagem, mexilhão, carangueja e burriés para os sargos e douradas; quando não tenho tempo de apanhar isca utilizo camarão. Para os robalos filetes de sardinha.

Luís Batalha

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