PESCAR À BÓIA NA PRAIA

ESTUDAR O MAR
0 tipo de pesca que eu mais gosto é à bóia. Acho que já nem sou pescador sou antes um fanático da bóia. Passe o exagero claro, mas quando vamos à pesca não consigo ter outra coisa na cabeça senão pescar à bóia.
Sempre que posso lá venho eu. Começo em Lavadores e corro todo o litoral até à Granja digamos que são cerca de 12 a 15km. Registo todos os sítios que considero importantes. Claro que ao longo dos anos fui conhecendo os melhores locais, os fundos e os habitats. Mas mesmo assim as coisas vão-se alterando e por isso há a necessidade de uma constante observação e análise.
Nada melhor do que a maré baixa para procurar os melhores recantos mas sempre com muita atenção. Muitas vezes o que nos parece um bom pesqueiro não o é efectivamente e aquele onde já capturamos muito deixou de ser frequentado. As coisas alteram-se. Por vezes de um dia para o outro.
Para pescar a tainha à bóia procuro os locais que tenham aquilo que nós chamamos de caneiros, que são entradas entre as rochas por onde o peixe passa. Uma referência é a quantidade de limo que envolve as pedras desses locais. A tainha também se alimenta desses vegetais.
A MARÉ IDEAL
Gosto de pescar com a maré a encher. Escolho o local e mantenho-me por ali. Não quero dizer com isto que faça sempre assim, depende muito dos locais. Há casos em que a tainha encosta mais facilmente com a maré a baixar. Temos é que ter cuidado com a utilização do engodo. Nesta situação com a maré a vazar temos que preparar um engodo pesado ou colocar sacos de engodo entre as pedras como costumam fazer nos paredões. Também faço isto nas praias com meias de vidro. 0 objectivo é evitar que o mar arraste o engodo para dentro porque senão acontece vermos o peixe saltar à nossa frente sem conseguirmos chegar lá com a bóia.
Não há uma maré ideal para pescar à bóia. Há pessoas que preferem a encher, outras a vazar e outras ainda na paragem da maré. Para mim tudo isso é relativo. A qualidade dos locais para pescar à bóia é que varia com as marés. É natural que o peixe permaneça mais tempo em locais onde não tenha possibilidade de perder o contacto com a água. Por exemplo nos locais com cordões de rochas muito avançados o peixe encosta mais facilmente a encher. Quando a maré vaza essas pedras começam logo a ficar descobertas e o peixe por instinto sabe que tem que desaparecer para não ficar sem água.
Há um tipo de local que se deve sempre evitar na pesca à bóia. É a areia. 0 fundo nunca pode ser de areia. Isto porque, por um lado, o engodo perde-se e espalha-se facilmente. Por outro, dificilmente a tainha ou o robalo se vão encostar se não tiverem rochas para se defender. 0 peixe nunca come perto em mar aberto, precisa sempre de uma defesa.
CONDIÇÕES DE PESCA
Tento sempre escolher locais abrigados, o que não é fácil nas praias. No mínimo tenho que estar num sítio que dê para pescar de costas para o vento, para poder controlar a bóia dentro de água. Por exemplo, no caso de vento norte, procuro uma reentrância que me permita estar de costas para o norte e com a bóia na água. Senão o que é que acontecia? 0 vento arrastava a bóia e eu ficava a pescar em seco.
Gosto especialmente de pescarem dias enevoados. 0 sol influência muito a visibilidade na água. Em dias de muito sol, as águas ficam transparentes e o peixe naturalmente fica mais desconfiado. 0 pescador de bóia deve também evitar roupas com cores fortes, gestos bruscos e barulho. Não nos podemos esquecer que o peixe está a comer muitas vezes a 20, 30 cm de nós e qualquer coisa mais anormal o pode assustar.
PREPARAÇÃO DO ENGODO

A forma como se consegue encostar o peixe é muito importante. Desde muito cedo comecei a averiguar a relação que existia entre o peixe e a qualidade do engodo. Cheguei à conclusão que a ração usada em piscicultura poderia ajudar a elaborar um engodo eficaz. Isto porque segundo me disseram alguns entendidos, as rações incluem produtos que estimulam o apetite do peixe. Decidi experimentar e neste momento é o que uso embora tenha trocado a ração usada em piscicultura, que é demasiado cara, por ração para animais domésticos. É que eu reparei que a composição de uma e de outra era praticamente a mesma só com diferenças a nível das percentagens.
À ração junto sardinhas e óleo de sardinha. Há um produto que se pode adicionar e que é importante: o óleo de fígado de bacalhau. Mas atenção! Para ser eficaz tem que ser bruto, a sair das secas. Este é que tem cheiro e é activo ao contrário do comercial que se vende em drogarias que é todo rectificado e que simplesmente não funciona. Junta-se massa de caranguejo para seduzir algum robalo que ande por ali, água, areia fina (q.b.) e esmaga-se muito bem. Como vou pescar à tainha vou fazer uma massa mais homogénea e fina; para o robalo teria que ser um pouco mais grossa e a sardinha não podia estar tão desfeita. Isto porque a tainha é capaz de estar ali toda entretida a comer os pequenos pedacinhos, enquanto o robalo como é muito voraz troca facilmente os bocados pequenos pelos grandes do isco do anzol.
Eu faço sempre o engodo sobre o pesado porque assim tenho sempre a certeza que se vai fixar na zona onde quero. No entanto há pessoas que não pensam assim e dizem que com o engodo pesado o peixe anda mais no fundo e que quando a maré está a encher o melhor é usar o engodo mais líquido. Isto é sempre muito difícil porque no mar há sempre corrente e não é fácil fixar o engodo.
ENGODAGEM INICIAL
Faço a engodagem inicial quando a maré começa a encher. Tem que ser feita em mais do que um ponto mas com sequência. Primeiro localizo os pontos onde em principio o peixe vai entrar quando tiver mais água. Procuro naturalmente os caneiros. À medida que a maré vai enchendo vou ter que abandonar os sítios de pesca por isso procuro manter uma linha de engodagem de ligação com o peixe para nunca o deixar perder-se ou afastar-se. É muito importante determinar bem o pesqueiro porque o engodo não faz milagres apenas cria apetência ao peixe e concentra-o. Se o peixe estiver muito afastado a acção do engodo nunca irá fazer efeito. Portanto, isto é importante: tem que se procurar um pesqueiro que seja um habitat razoável para o tipo de peixe que queremos pescar, vamos tentar concentrar o maior número de exemplares e aproximá-lo da área que queremos.
MONTAGEM
A montagem é directa ou seja: bóia, chumbos e anzóis são colocados na própria linha que sai do carreto. A bóia é fixa e a distância em relação aos chumbos e ao anzol é sempre relativa. Tudo tem que ser feito numa base de experiência. Não se pode dizer: põe-se a bóia e o anzol a tantos centímetros e já está, isto porque tudo depende do local, da altura da água que vai variando. A água nunca está estável e conforme as marés tem que se subir ou descer a bóia. 0 que convém sempre é que esta se mantenha muito visível e vertical e que o isco esteja ligeiramente acima do peixe.
O ISCO

0 isco que utilizo neste tipo de pesca é a sardinha, embora por vezes recorra ao carapau ou à cavala. Estes peixes desfazem-se ligeiramente quando são frescos. Para os conservar e endurecer um pouco preparo-os, deito-lhes sal, envolvo cada unidade em jornal e coloco-os no frigorífico. Há pescadores que gostam de pescar com o isco fresco são opções eu acho que o isco mais salgado e com mais odor assemelha-se mais ao próprio engodo e torna-se mais atractivo.
Deve-se ter em atenção que a sardinha que se usa no isco não é igual à do engodo. Esta é apenas congelada sem grandes preocupações de a manter fresca.

ENGODAGEM EM ACÇÃO DE PESCA
Uma das primeiras coisas que faço antes de lançar o engodo é deitar um pequeno pau na água e observar a forma como ele se movimenta. Se circula e vem ter ao mesmo sitio, se foge para a esquerda ou para a direita. É assim que eu sei como estão a funcionar as correntes e consequentemente onde e como vai trabalhar o engodo. Faço de início uma engodagem forte, monto calmamente o material e depois faço a devida manutenção do engodo no pesqueiro. Ou seja, primeiro tento concentrar o peixe e depois apenas o mantenho no pesqueiro.